sábado, 28 de agosto de 2010

Educação da Criança Surda

A educação é fundamental  no crescimento da pessoa. A educação da criança surda é um direito, faz parte da sua condição como ser humano, e o dever de educar é uma exigência do ser humano adulto, do pai e do educador.

Para a criança surda, tal como para a criança ouvinte, o pleno desenvolvimento das suas capacidades linguísticas, emocionais e sociais é uma condição imprescindível para o seu desenvolvimento como pessoa.

O ensino da Língua Portuguesa

A linguagem é essencial à vida em comunidade, pois é através dela que partilhamos ideias, emoções, experiências. Sem a linguagem as nossas potencialidades como ser humano ficam muitíssimo reduzidas.

Para a maioria das crianças, a língua de escolarização é também a língua materna - mas o mesmo não acontece com uma grande maioria dos surdos (cuja língua materna, naturalmente será uma língua gestual). Surgem então dois desafios:

    * Criação de condições que permitam o pleno desenvolvimento da criança;
    * Criação de condições que permitam a sua aptidão para interagir em diversos sistemas sociais e linguísticos: na comunidade de surdos e na comunidade ouvinte.

O sucesso escolar depende, em grande parte, do domínio da língua de escolarização. Além disso, a linguagem escrita é a modalidade de comunicação mais facilmente partilhável por surdos e ouvintes. No entanto, a língua de aquisição natural e espontânea da criança surda não é, obviamente, uma língua oral, logo, para a população surda o conhecimento da escrita implica a aprendizagem de uma nova língua.
[editar] Como ensinar o surdo a ler?

A criança com bom domínio da língua gestual tem vantagem, quando chega à escola.

Há três tipos de ambientes de aprendizagem:

    * Centrada no aluno - experiência linguística, hábitos literácitos da família, atitudes e valores;
    * Ancorada na avaliação - progresso do aluno, comparação com pares;
    * Referenciada ao conhecimento - autonomia e fluência da leitura; desenvoltura e correcção no uso multi funcional da escrita; conhecimento da estrutura da Língua Portuguesa.

Descoberta das letras

Começar por criar noção de que:

   1. nomes diferentes começam por letras diferentes;
   2. sequências de letras diferentes resultam em palavras com significados diferentes;
   3. é possível corresponder a letra a algo que ela representa – dactilologia;
   4. criar consciência de que movimentos articulatórios estão na base de determinado som.















Com isto temos o objectivo que a criança surda saiba que:

   1. unidades mínimas são diferentes entre si;
   2. a sua presença altera o significado da palavra;
   3. letra é a representação de um som (nas línguas orais onde se aplica esta regra);
   4. letras têm nome.

Estas noções podem ser criadas com ajudas tais como o computador, desenhos, livros, entre outros que o educador julgue útil para a especificidade do caso em questão.

 Descoberta da natureza da linguagem escrita

3. essa informação aparece em variados meios;
   4. sinais de escrita são distintos de outras produções gráficas;
   5. os mesmos organizam-se segundo padrões definidos.

Assim, é bom que o educador comece por ler histórias para a criança, com posterior tradução para a língua gestual. Após a leitura deve ser discutido o assunto lido.

Serve também de ajuda, neste assunto, que o educador ensine à criança como usar, por exemplo, o calendário, como identificar o seu nome (por descobri-lo por entre outras palavras), como reconhecer marcas comerciais.

Descoberta da existência de palavras

O educador deve desenvolver actividades para ensinar e estimular a criança a:

   1. reconhecer unidades de cadeias gráficas (palavras);
   2. perceber que as palavras têm significado;
   3. perceber que as palavras estão isoladas no texto, pelos espaços;
   4. saber onde começa e onde acaba a palavra;
   5. saber que palavras iguais têm o mesmo significado e gesto (sinal).

 Aprendizagem da compreensão da leitura

A leitura é uma actividade cognitiva, o seu alvo é a obtenção de significado. Na Língua Portuguesa, a aprendizagem da gramática é difícil para qualquer aluno que esteja a aprender uma segunda língua, para o aluno surdo também, especialmente frases na voz passiva, o complemento indirecto, as orações relativas, as conjunções, artigos e os pronomes (para além de existir também dificuldades inerentes com o vocabulário).

A estrutura dos textos, qualquer que seja o seu objectivo (informar, divertir, persuadir o leitor), tem que ver com a forma como as ideias se organizam, com vista à clareza da exposição do conteúdo. Por isso, para diferentes tipos de texto, serão necessárias diferentes abordagens.

Perante os textos informativos é necessário que a criança aprenda a:
   1. tomar atenção aos sinais de aproximação ao conteúdo, tais como o título, fotografias, imagens, entre outros;
   2. identificar o tema da informação;
   3. identificar a ideia principal.

Podem ser usadas algumas ajudas, como estratégias para o treinamento da compreensão deste tipo de textos, como por exemplo o questionamento do texto (O que sugere o título? O que o autor nos quer transmitir? Será que poderia existir um final diferente?), também a interpretação do texto para a língua gestual (com especial atenção às palavras-chave do texto, à qual devem sempre ser associados sinónimos, para uma melhor compreensão por parte do surdo).
Intérprete

Perante os textos narrativos, os objectivos a serem alcançados pelo surdo são:
   1. recorrer a imagens, esquemas e ilustrações como complemento da informação textual;
   2. identificar as etapas do processo temporal;
   3. identificar e compreender os verbos da acção;
   4. recorrer à consulta do texto sempre que a tarefa o requerer.

Para este tipo de texto podem ser utilizados os seguintes tópicos de ajuda: a elaboração do esquema da história, o reconto e revisão da história em língua gestual, a ilustração, e a tradução e revisão da história em texto escrito.

Existem, no entanto, contextos educativos que podem influenciar a compreensão da leitura, são eles: o contexto psicológico (tem que ver com a intenção da leitura), o contexto social (engloba as intervenções de professores e de colegas do meio escolar) e o contexto físico (inclui todas as condições materiais em que se desenrola a leitura).

Desenvolvimento social e emocional da criança surda

É por meio dos relacionamentos sociais que descobrimos o que é necessário para viver na nossa sociedade.

A família é o factor principal no que respeita à aprendizagem das questões sociais básicas. Á medida que cresce, a criança convive cada vez mais com pessoas fora do círculo familiar, pessoas essas que, por sua vez, passam a ter parte activa na socialização da criança. Também a escola é importante – quase tanto quanto a família – pois proporciona à criança a convivência num grupo mais amplo de indivíduos (os seus pares). Os media exercem um papel modelador nos comportamentos sociais da criança e a educação religiosa é também um meio de transmissão de valores.

Na primeira infância, as interacções ocorridas desempenham um papel determinante no desenvolvimento social da criança. Estudos recentes concluem que a voz dos pais pode ser compensada com outros estímulos, tais como: sorrisos, carícias, expressões, etc. O educador (quer progenitor, quer outro) surdo do bebé surdo estabelece a ligação com a criança por intermédio de gestos, estímulos visuais e tácteis, de forma natural.

Já na idade escolar, pais e educadores mostram, frequentemente, alguma preocupação relativamente ao isolamento social da criança e ao aparecimento de comportamentos anti-sociais, ou faltas de educação. Dentre os factores de insucesso entre as crianças surdas, um dos mais relevantes será a falta do desenvolvimento da linguagem, uma vez que competência social está muitas vezes ligada a competência comunicativa. É também de extrema importância que a criança surda seja estimulada a ter uma boa auto estima, a aceitar o seu modo único de ser e a aceitar a surdez.

Quanto ao comportamento desajustado de algumas crianças surdas, esse facto deve-se, em muitas das vezes, à incompreensão das regras da sociedade, pelo que as mesmas lhes devem ser transmitidas com clareza e concisamente (se for necessário, usando ajudas visuais, tais como desenhos ou fotografias).

A surdez em si, não influencia o desenvolvimento sócio-emocional da criança.